A Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) mostrou mais uma vez como funciona a política de bastidor. Na terça-feira (16), os deputados aprovaram rapidinho uma norma interna que muda a jornada de trabalho de servidores do alto escalão e ainda garante compensações financeiras. Sem confusão, sem discurso duro, sem obstrução. Quando é para eles, tudo anda ligeiro.
A nova regra cria a chamada licença compensatória: a cada três dias úteis trabalhados, o servidor ganha um dia de folga. Na prática, virou uma escala 4x3, quatro dias de trabalho e três de descanso. Um privilégio que não é para qualquer um.
Esse benefício vale apenas para consultores legislativos e procuradores legislativos, cargos de confiança e dos mais bem pagos da Casa. Para se ter ideia, procurador da Alepe ganha mais de R$ 44 mil por mês. Enquanto isso, o povo que acorda cedo, pega ônibus lotado e trabalha seis dias por semana não tem nem conversa.
E tem mais. A resolução ainda libera o benefício para até dez servidores ligados à Mesa Diretora, escolhidos diretamente pela Presidência e pela Primeira-Secretaria. Ou seja: além de legislar em causa própria, ainda escolhem quem vai ser beneficiado.
Como é um projeto de resolução, não precisa nem passar pelo Governo do Estado. Eles mesmos aprovam, eles mesmos usufruem. Simples assim. O mais revoltante é o comportamento dos políticos. No microfone, vivem brigando, trocando farpas, fingindo disputa. Mas na hora de votar regalia, acabam as diferenças. Os aliados da governadora Raquel Lyra e os aliados do prefeito João Campos votam do mesmo jeito. Um protege o outro.
É sempre assim: quando o assunto é privilégio, eles são todos iguais.
Isso ficou ainda mais claro no encerramento do ano legislativo. Depois de semanas de conversa nos bastidores, a Alepe aprovou todos os projetos do Governo do Estado, incluindo a LOA de 2026 e um empréstimo de R$ 1,7 bilhão. No final, veio o discurso bonito dizendo que “todo mundo saiu ganhando”.
E saiu mesmo. O governo ganhou, a Assembleia ganhou. Só quem não ganhou foi o povo.
Enquanto o cidadão comum enfrenta salário baixo, falta d’água, hospital sem médico e estrada esburacada, a elite do poder garante mais conforto, mais folga e mais vantagem.
Depois aparecem dizendo que brigam pelo povo, que defendem a causa popular, que são diferentes. Não se engane. Quando a causa é deles, a aprovação é imediata. Quando a causa é do povo, vem o silêncio, a enrolação e a desculpa.
A Alepe precisa de renovação de verdade. Precisa parar de ser um clube fechado onde os mesmos sempre ganham. Porque do jeito que está, fica claro: quando o assunto é regalia, eles são todos iguais, os de Raquel e os de João.