A violência armada contra pessoas em situação de rua atingiu um patamar inédito no Grande Recife em 2025. Segundo levantamento do Instituto Fogo Cruzado, entre 1º de janeiro e 10 de junho deste ano, 12 pessoas desse grupo social foram baleadas na capital e na Região Metropolitana. Todas morreram.
Este é o maior número de mortes registrado desde que a organização começou a monitorar a violência armada em Pernambuco, em 2019. De acordo com o instituto, a maioria das vítimas era homem, negra e vivia em situação de extrema vulnerabilidade. Os casos ocorreram, em sua maioria, na cidade do Recife.
Entre os episódios mais recentes, está o assassinato de um homem identificado como Chico, de 36 anos, morto a tiros enquanto dormia no Mercado da Encruzilhada, na Zona Norte da capital, no dia 5 de junho.
Segundo a coordenadora regional do Instituto Fogo Cruzado, Ana Maria Franca, os dados revelam um padrão de violência deliberada. São situações de homicídio. Não se tratam de casos de bala perdida. É uma violência direcionada. Precisamos entender por que essas pessoas estão morrendo. A invisibilidade dessa população contribui para a permanência de um modelo de segurança que não investe em prevenção e que falha na proteção dos mais vulneráveis”, afirmou.
Desde 2019, o Instituto Fogo Cruzado já registrou ao menos 22 pessoas em situação de rua baleadas no Grande Recife, sendo 20 mortes e apenas 2 sobreviventes. Em 2024, foram quatro casos, com dois mortos e dois feridos. Já em 2020 e 2022, nenhum caso foi registrado.
Levantamento do Comitê Estadual da População em Situação de Rua aponta que cerca de 2.500 pessoas vivem nas ruas do Recife atualmente. De acordo com o órgão, o número de vítimas fatais entre os mais jovens também tem aumentado. Além disso, 60% das crianças e adolescentes em situação de rua ainda mantêm vínculos familiares, o que reforça a necessidade de políticas públicas que atuem na prevenção e na reintegração social.
“É preciso ampliar a rede de acolhimento com mais centros culturais, centros POP e espaços de convivência. Mas também é essencial fortalecer o diálogo com as famílias. A rua não é um lugar seguro para ninguém, muito menos para nossas crianças”, alertou Robson da Silva Pessoa, presidente do comitê.
Apesar de Pernambuco registrar uma queda de 15,6% nas Mortes Violentas Intencionais (MVI) em fevereiro deste ano, conforme dados da Secretaria de Defesa Social (SDS-PE), o número de homicídios contra pessoas em situação de rua contrasta com essa tendência e acende um alerta.
Em termos nacionais, o Brasil convive com uma taxa média de 23 homicídios por 100 mil habitantes. Pernambuco, no entanto, figura entre os estados com os índices mais altos: 40,2 mortes por 100 mil habitantes em 2023, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Especialistas em direitos humanos e segurança pública alertam que o aumento da letalidade contra pessoas em situação de rua exige ações específicas do Estado, com reforço na investigação de crimes, fortalecimento da rede de acolhimento e combate ao racismo estrutural, já que a maioria das vítimas é negra.
(Dados do Instituto Fogo Cruzado)
| Ano | Baleados | Mortos | Feridos |
|---|---|---|---|
| 2019 | 5 | 3 | 2 |
| 2020 | 0 | 0 | 0 |
| 2021 | 1 | 1 | 0 |
| 2022 | 0 | 0 | 0 |
| 2023 | 2 | 2 | 0 |
| 2024 | 4 | 2 | 2 |
| 2025 (até 10/06) | 12 | 12 | 0 |
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